Hoje comprei um guarda-chuva. Sensação estranha. Não me lembro de ter feito isso antes. Isso mesmo: em vinte e oito anos de vida, acredito ter sido a primeira vez que adquiro um objeto de tamanha utilidade. Mentira, mentira. Lembro de ter sido vítima de um dos “vendedores-corvos” da saída da estação do metrô no Largo do Machado, que conseguiu, agindo em cima do meu desespero extremo para chegar à minha casa em meio a uma típica chuva de verão carioca, vender um de seus produtos superfaturados. Acho que paguei cinco ou dez reais, isso não importa. O importante é que o guarda-chuva não valia sequer noventa e nove centavos. Mas retifico, admito: a verdade é que hoje foi a segunda vez que comprei um guarda-chuva. A primeira em situação normal, ressalte-se, sem qualquer tempestade a me influenciar.

É engraçado que, apesar de ter sido o primeiro guarda-chuva que posso chamar de meu – já que aquele comprado no metrô teve vida mais curta que a própria tempestade da qual ele deveria me proteger –, posso ter certeza que não foi o meu primeiro guarda-chuva. Inclusive, isso pode parecer bem estranho, mas guardo boas recordações de alguns deles. Talvez eu até nutra certo carinho e uma pequena saudade de um ou outro. Lembro de um guarda-chuva azul com pequenas figuras em cores mais ou menos amarronzadas, seu botão de acionar era dourado. Esse era do meu pai, mas lembro que me apossei dele sem grandes escrúpulos. Era pequeno, mas servia para me proteger da garoa de Joinville na minha adolescência. Não sei o fim dele, sumiu repentinamente, sem qualquer aviso-prévio, como parece ser o fim da maior parte de seus companheiros.
Aliás, começo a perceber que os guarda-chuvas são assim mesmo, meio volúveis, inconstantes. Aparecem e somem conforme lhes apetece. Pensam que não vamos sentir falta deles, apenas por não sabermos como eles chegaram até nós? Não percebem que pode ter sido o irrefreável destino que os guiou até chegarem a cada mão específica, a cada um que os toma como dono, no seu nobre ofício de nos proteger contra a chuva que cai sobre nossas cabeças? Não ligam para nada disso e vão ficando por aí, em bancos, ônibus, metrôs, casas de estranhos, casas de conhecidos. Ou será que a culpa é das pessoas que deles se apossam a seguir, confortando-os com as mesmas palavras de que o encontro fortuito entre pessoa e objeto não pode ser nada menos que obra de um sensacional e irreparável destino? Pessoa que, em seguida, já fora da situação de necessidade (chuva), descumprem tais promessas, largando o pobre guarda-chuva no primeiro restaurante, bar, livraria, biblioteca, repartição pública ou qualquer outro “achados e perdidos”.
Seriam os guarda-chuvas vilões ou vítimas? Não sei ao certo. Só sei que eles somem, principalmente quando precisamos deles. Estariam mancomunados com os vendedores de guarda-chuva, apenas para garantir uma maior valorização da categoria? Claro, porque em meio à tempestade, para um desguardachuvado qualquer guarda-chuva chinês tem seu devido valor – e eu sirvo como prova disso, basta lembrar o fatídico guarda-chuva do metrô. Aliás, se essa é a intenção dos senhores guarda-chuvas, eles estão conseguindo. Lembro que, tempos atrás, guarda-chuva era item de loja de 1,99. Só não lembro o motivo de nunca ter comprado um naquele tempo, mas tudo bem.
Hoje em dia, não duvido que ainda existam os subvalorizados (sem hífen, olha aí as novas regras da gramática). Mas eu paguei, hoje, exatos dezoito reais (18!) num guarda-chuva sem grandes atrativos. Aliás, quais seriam os atrativos de um guarda-chuva? Ser automático? Não sei, sei apenas que o meu não é automático. É grande como um sombreiro, caro e, aparentemente, protege da chuva. Espero sinceramente apenas que ele não suma como os todos os outros. E que ele não tenha tanta utilidade. Aliás, deve ser por isso que não fazemos tanta questão de pensar em guarda-chuvas: bom mesmo é não precisar deles.
1 comentários:
rsrsrsrs.. bem legal!!!
Bem verdade.
:)
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