Terça-feira, 23 de Agosto de 2011

Guarda-chuvas

Hoje comprei um guarda-chuva. Sensação estranha. Não me lembro de ter feito isso antes. Isso mesmo: em vinte e oito anos de vida, acredito ter sido a primeira vez que adquiro um objeto de tamanha utilidade. Mentira, mentira. Lembro de ter sido vítima de um dos “vendedores-corvos” da saída da estação do metrô no Largo do Machado, que conseguiu, agindo em cima do meu desespero extremo para chegar à minha casa em meio a uma típica chuva de verão carioca, vender um de seus produtos superfaturados. Acho que paguei cinco ou dez reais, isso não importa. O importante é que o guarda-chuva não valia sequer noventa e nove centavos. Mas retifico, admito: a verdade é que hoje foi a segunda vez que comprei um guarda-chuva. A primeira em situação normal, ressalte-se, sem qualquer tempestade a me influenciar.

É engraçado que, apesar de ter sido o primeiro guarda-chuva que posso chamar de meu – já que aquele comprado no metrô teve vida mais curta que a própria tempestade da qual ele deveria me proteger –, posso ter certeza que não foi o meu primeiro guarda-chuva. Inclusive, isso pode parecer bem estranho, mas guardo boas recordações de alguns deles. Talvez eu até nutra certo carinho e uma pequena saudade de um ou outro. Lembro de um guarda-chuva azul com pequenas figuras em cores mais ou menos amarronzadas, seu botão de acionar era dourado. Esse era do meu pai, mas lembro que me apossei dele sem grandes escrúpulos. Era pequeno, mas servia para me proteger da garoa de Joinville na minha adolescência. Não sei o fim dele, sumiu repentinamente, sem qualquer aviso-prévio, como parece ser o fim da maior parte de seus companheiros.

Aliás, começo a perceber que os guarda-chuvas são assim mesmo, meio volúveis, inconstantes. Aparecem e somem conforme lhes apetece. Pensam que não vamos sentir falta deles, apenas por não sabermos como eles chegaram até nós? Não percebem que pode ter sido o irrefreável destino que os guiou até chegarem a cada mão específica, a cada um que os toma como dono, no seu nobre ofício de nos proteger contra a chuva que cai sobre nossas cabeças? Não ligam para nada disso e vão ficando por aí, em bancos, ônibus, metrôs, casas de estranhos, casas de conhecidos. Ou será que a culpa é das pessoas que deles se apossam a seguir, confortando-os com as mesmas palavras de que o encontro fortuito entre pessoa e objeto não pode ser nada menos que obra de um sensacional e irreparável destino? Pessoa que, em seguida, já fora da situação de necessidade (chuva), descumprem tais promessas, largando o pobre guarda-chuva no primeiro restaurante, bar, livraria, biblioteca, repartição pública ou qualquer outro “achados e perdidos”.

Seriam os guarda-chuvas vilões ou vítimas? Não sei ao certo. Só sei que eles somem, principalmente quando precisamos deles. Estariam mancomunados com os vendedores de guarda-chuva, apenas para garantir uma maior valorização da categoria? Claro, porque em meio à tempestade, para um desguardachuvado qualquer guarda-chuva chinês tem seu devido valor – e eu sirvo como prova disso, basta lembrar o fatídico guarda-chuva do metrô. Aliás, se essa é a intenção dos senhores guarda-chuvas, eles estão conseguindo. Lembro que, tempos atrás, guarda-chuva era item de loja de 1,99. Só não lembro o motivo de nunca ter comprado um naquele tempo, mas tudo bem.

Hoje em dia, não duvido que ainda existam os subvalorizados (sem hífen, olha aí as novas regras da gramática). Mas eu paguei, hoje, exatos dezoito reais (18!) num guarda-chuva sem grandes atrativos. Aliás, quais seriam os atrativos de um guarda-chuva? Ser automático? Não sei, sei apenas que o meu não é automático. É grande como um sombreiro, caro e, aparentemente, protege da chuva. Espero sinceramente apenas que ele não suma como os todos os outros. E que ele não tenha tanta utilidade. Aliás, deve ser por isso que não fazemos tanta questão de pensar em guarda-chuvas: bom mesmo é não precisar deles.

Terça-feira, 28 de Junho de 2011

Sinuoso

O meu desejo é o incerto:
Não ser direto, expresso, eu peço
Pra ser um pouco menos claro, declaro
Que fujo do objetivo, completamente cativo
Do que é subjetivo, defensor incansável e altivo,
Como a nebulosa bruma que o dia esmaece
(E) torna o reto indireto, a alegria entristece
E a gente (quase) esquece do inefável desejo ilícito
De um verso que, de tão "assobiável", fique apenas implícito.

Quinta-feira, 10 de Fevereiro de 2011

Simpatia e amor

Eu quero gritar uma verdade, descobri bem ou mal,

A gente é como vinho, só melhora, e isso é tão genial.

Viajar bem velho pelo mundo vai ser sensacional.


Quero aprender, ensinar, melhorar.

Saber cair, mas também levantar.

Fantasiar a dor, simpatia e amor (é sempre bom)


Juntar os amigos pra fazer um som,

Ter a amizade como seu maior dom:

Simpatia e amor (É tão bom)


Como um dia cinza feito esse melhorou meu astral?

Nada como um dia após o outro pra ficar bem legal.

A vida é uma doce melodia, sempre vale afinal...


Quero aprender, ensinar, melhorar.

Saber cair, mas também levantar.

Fantasiar a dor, simpatia e amor (é sempre bom)


Juntar os amigos pra fazer um som,

Ter a amizade como seu maior dom:

Simpatia e amor (É tão bom)


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Essa é uma letra, que se transformou em música, feita em cima de uma melodia do meu parceiro Tiago. A letra mostra um pouco da forma como pretendo pensar, não só em dias como hoje (meu aniversário, pra quem não sabe), mas também em momentos de descontentamento. Afinal, a vida é uma eterna melodia, sempre vale afinal...

Quarta-feira, 9 de Fevereiro de 2011

Novelas e vida real

“José é um cara honesto que luta para vencer na vida com talento e trabalho, enquanto João se mete nas maiores armações para se dar bem, mesmo que para isso tenha que passar por cima de qualquer um”. Essa é a típica chamada de novela. Nenhum problema com ela. Fiquei pensando, quando ouvi uma dessas propagandas da (ex) nova novela das nove, como seria a minha apresentação. O que seria dito da minha família e dos meus amigos na novela da vida real? Realmente não sei. Sou um tanto prolixo, por isso acho difícil definir qualquer coisa em poucas palavras, o que torna a tarefa ainda mais complicada quando o objeto de análise é outra pessoa.
Não sou grande fã de novelas por vários motivos. Um deles é a lógica maniqueísta que é apresentada nas tramas. As novelas se propõem a, de certa forma, retratar a realidade. Contudo, é o objetivo que elas menos conseguem alcançar, começando por essa lógica de bem versus mal. Na vida real não existem mocinhos ou vilões, existem pessoas que trabalham, lutam, divertem-se, brigam, reconciliam-se, tomam decisões certas e erradas, etc.. Essa é apenas uma das facetas da vida real que não é transposta de forma adequada para o enredo da novela.
O grande problema de uma novela é que, ao contrário de um filme ou de um livro, ela pretende ser realista. A novela quer mostrar o que as pessoas vivem no dia a dia, quer que as pessoas se identifiquem com as situações. É possível que muitas pessoas consigam tal identificação, coisa que não funciona comigo, já que a construção dos personagens é feita sobre essa lógica artificial de que o mundo real é construído de uma luta constante entre pessoas boas e pessoas ruins. Sem considerar ainda as diversas outras dissimulações da realidade que são apresentadas, como pobres que tem padrão de vida muito superior aos pobres da vida real, classe média que é rica, milionários que perdem tudo de uma hora para outra, entre outras situações inverossímeis.
Outro problema é o tempo de duração de uma novela. Como ela se propõe a retratar a vida real, – de forma imprecisa, ressalto – as ações acabam aproximando-se do padrão real, de uma forma um pouco mais acelerada, obviamente. Ou seja, ao contrário de um filme, em que você consegue condensar vários anos num enredo de duas horas, na novela a trama se desenrola de forma bem menos ágil. Nesse ponto, a novela aproxima-se um pouco mais da realidade. Aproxima-se e também se distancia, na medida em que tenta dar lógica a algo que parece essencialmente ilógico (a vida).
Se há alguma lógica na vida, ela somente pode ser obtida por biógrafos que se debruçam sobre a existência de uma pessoa depois que ela já morreu, mas ainda assim muitos chegam à conclusão que a nossa existência realmente não faz o menor sentido. Na novela, tudo faz sentido. Há início, meio e fim, de forma bem clara. Um começo em que geralmente as pessoas estão bem, felizes, quando tudo está sendo apresentado ao espectador. O meio é o período caótico, onde se desenvolvem todas as tramas, com golpes, mortes, relacionamentos, traições e tudo mais que possa dar tempero à história. E o fim, onde tudo novamente é rearranjado, o caos volta a ser controlado, momento do “e foram felizes para sempre...”
Pode ser uma clara manifestação do meu pessimismo congênito, mas eu sempre pensei o que acontece depois do “e foram felizes para sempre”. É impossível pensar que um casal sofra por seis meses (ou mais) para conseguir ficar junto, lutando contra inúmeros vilões, diversas ciladas e, de repente, do nada, consiga afastar todas as adversidades. Foram felizes para sempre mesmo? Depois disso não houve mais nenhuma briga? Não surgiu nenhum novo vilão tentando acabar com a relação dos bonzinhos da história? O mocinho não cansou dessa “felicidade eterna” e resolveu ter uns momentos mais quentes com a vilã? São todas explicações que o fim da novela não dá para pessoas que, assim como eu, perguntam-se se a felicidade pode ser mesmo eterna como vendem os novelistas globais.
No fim do ano passado estava lendo “Papillon”, livro e Henri Charrière que inclusive virou filme, sobre a vida do autor, uma espécie de autobiografia romanceada. Gostei da história, achei um bom livro, mas no fim fiquei com a impressão de ter assistido uma novela inteira. Ler – e também sofrer – com as experiências do narrador por mais de trezentas ou quatrocentas páginas para ter um parágrafo de “feliz para sempre” não era bem o que eu esperava do fim do livro. E é essa a lógica que a novela nos apresenta: acompanhar o sofrimento e as lutas de um personagem, as maldades de outros, as graças de alguns coadjuvantes, sabendo que no fim tudo (ou quase tudo) vai dar certo.
Pode ser esse o motivo que tanto atraia o público das novelas. Saber que as maldades serão punidas, que os crimes serão solucionados, de preferência com punição dos injustos, que os bons receberão o seu prêmio por não terem saído da linha. Isso que o noveleiro já espera quando começa a acompanhar a trama: que no fim tudo dê certo. O caos, representado por todos os lances que ocorrem no decorrer da trama, diverte, mas bom mesmo é a organização, que tudo volte ao seu lugar. Ou seja, a novela quer representar a realidade, mas as pessoas a assistem porque, na verdade, nela acontece tudo ao contrário do que vemos no mundo real. No fim das contas, acho nossa vida (a real), com toda sua falta de lógica, muito mais divertida que qualquer novela. Talvez alguns só não percebam isso...

Sábado, 22 de Janeiro de 2011

Arrependimento Eficaz (ou Antes do Fim)


O direito penal tem três conceitos que, à primeira vista, são semelhantes, mas tratam de situações opostas: tentativa, desistência voluntária e arrependimento eficaz. Na tentativa, você começa a executar um crime, mas não consegue consumá-lo por circunstâncias alheias à sua vontade, ou seja, porque alguma coisa deu errado na hora “H”. A desistência voluntária acontece quando a pessoa começa a executar o crime, mas no meio da execução, por vontade própria, resolve não concretizar a infração. Por fim, o arrependimento eficaz acontece quando a pessoa inicia a execução, realiza todos os atos dela, mas antes que o crime seja consumado, pratica uma nova ação para evitar a produção do resultado.

Estou me beneficiando de um arrependimento eficaz. Eu tinha a intenção de parar de escrever, de deixar de lado os textos para fazer alguma coisa mais útil – ou não, apenas para não fazer nada. Esse seria meu crime: deixar de escrever. Eu comecei a executá-lo, há de se perceber que se trata de um crime totalmente omissivo, deixando de escrever durante vários meses, coisa que há tempos não fazia. Diminui meu ritmo, parei para repensar se valia continuar escrevendo bobagens. Voltei, brevemente, apenas para o meu canto não poder ser dado como morto. Mas tracei a concretização do assassinato para o novo ano.

Não sei bem ao certo o que me dá esse impulso de querer parar de escrever. Com certeza não é apenas um motivo. Penso em qual a real utilidade dos meus textos. Chego à conclusão de que meus textos, na verdade, nunca tiveram qualquer intenção de ser úteis, ou seja, a sua completa inutilidade não é motivo para que eu queira deixar de produzi-los. Pode ser a falta de vontade de sentar, parar um pouco, organizar as idéias e escrever. Essa vontade que eu sentia de forma muito mais intensa antigamente vem se afastando, anda mais direcionada para textos mais longos, com maiores ambições, não para pequenas crônicas.

A falta de pessoas que compartilhem suas impressões sobre o que escrevo certamente é uma das coisas que influencia bastante a minha decisão, talvez o fato de alguns amigos terem trocado impressões e feito comentários sobre textos lidos recentemente tenha sido o motivo de esse texto estar sendo publicado. Há motivos de sobra para continuar escrevendo e para deixar de escrever, a balança acaba pesando mais para um lado ou outro dos argumentos de acordo com o momento vivido. O importante é que coloquei como uma das minhas resoluções de ano novo o objetivo de não escrever mais textos (não publicá-los, na verdade). Mas admito que é a primeira resolução de ano novo que está sendo deixada de lado.

Não pretendo me enganar com a falsa idéia de que terei uma disciplina rígida na periodicidade dos meus textos, como já tentei fazer no passado. Eles serão menos periódicos que eclipses solares. Talvez sejam um pouco mais, na verdade não sei a periodicidade destes eclipses. Não quero escrever coisas grandiosas, mas também não quero escrever burocraticamente, por obrigação. Só espero, sinceramente, que essa seja a primeira e única resolução de ano novo que abandono, mesmo sabendo que estou me enganando...

Sábado, 11 de Dezembro de 2010

Imóvel

A terra já contornou o sol

Não sei bem quantas vezes.

O choro há muito tempo secou,

Aquela moda que você conhecia passou

E vieram tantas outras que não tenho

Memória para lembrar (de todas).

As ondas já cruzaram todo o mar

E estouraram em nossa praia

Mas você não estava lá.

Aquela semente que lançamos ao chão

Virou uma planta linda

Que não vive mais a estação que se inicia

Pois o inverno já se fez primavera que já é verão

Que logo esfria, será outono

Como o mês em que me perdi, longe de ti,

Não sei o ano, no calendário há um engano:

O mundo mudou, tanta coisa passou,

Só teu quarto não viu o tempo fluir,

Tudo que se acaba, finalmente ruir.

Mas aqui fora tudo insiste em existir

Enquanto a terra contorna o sol,

Novamente.

Domingo, 5 de Dezembro de 2010

Contra-fluxo

Nos tempos de Rio, quando falava para as pessoas que morava no Flamengo e trabalhava em São Gonçalo, atravessando a Ponte Rio-Niterói quase que diariamente, sempre tinha que explicar que eu não encontrava problemas com trânsito porque sempre pegava o fluxo contrário. Ou seja, quando os milhares de niteroienses estavam indo para o Rio, entupindo a ponte naquele sentido, eu seguia calmamente no sentido Niterói, junto de um número bem menor de felizardos que apenas acompanhavam o movimento nas pistas contrárias, geralmente paradas.

Meu caminho era bem simples: era só sair do meu prédio na Conde de Baependi, 62, seguir até a rotatória com a Rua do Catete, contorná-la, pegar o Largo do Machado que depois vira Rua das Laranjeiras até a entrada que vai dar no Túnel Santa Bárbara. Esse trecho geralmente era onde havia mais trânsito, podia demorar até uns quinze minutos para vencer os carros aglomerados no semáforo da Rua do Catete com o Largo do Machado como se estivessem em Bengalore ou alguma outra cidade da Índia, dada a confusão naquele ponto exato. Mas chegando ao túnel, tudo ficava bem simples: era só seguir, avistar a Marquês de Sapucaí de um lado, do outro a Avenida Presidente Vargas, passar pela UPP do Morro da Providência, atravessar a pracinha onde sempre tinha um carro da polícia estacionado e seguir reto, chegando à região do porto. Dali, pegar a Perimetral e depois a Ponte era questão de três minutos, atravessar os treze quilômetros, pagar o pedágio, logo após pegar a esquerda no sentido São Gonçalo. Pronto, tudo no contra-fluxo, o que significava talvez uma hora a menos de viagem. E a mesma coisa valia para a volta, em sentido inverso, obviamente.

Na última sexta, verifiquei que mesmo após voltar para Santa Catarina, continuo no fluxo contrário. Quando chegava a Floripa, todo o trânsito estava concentrado em sair da ilha, ali naquele exato ponto em que a Via Expressa encontra a BR-101 no sentido Palhoça. Ali o tráfego é intenso, tudo fica congestionado, sem chance de perder menos de uma hora parado. Mas não para quem vem do Norte do estado, no fluxo invertido, entrar na ilha nesse horário é a melhor opção, assim como sair da ilha na segunda-feira cedo, quando todo o povo que saía na sexta retorna vorazmente, querendo reconquistar seu espaço perdido. Logo, percebi que me mantenho no fluxo contrário da maioria das pessoas há algum tempo, mesmo sem ter percebido isso antes.

O grande problema de estar no contra-fluxo não é o sentimento de ser do contra, na verdade esse é o menor dilema. O grande problema é saber que você sempre está no fluxo, ou seja, você nunca está devidamente estabelecido em um local. É o sentimento que carrego desde que mudei para o Rio, a falta de um endereço com o qual eu possa me identificar, um lugar que possa chamar de meu. No Rio, vivia no fluxo contrário, morava no Rio e trabalhava em São Gonçalo, com a cabeça em Santa Catarina, fugindo para o Sul sempre que podia. Em Mafra, passo a semana numa cidade com a qual não tenho a menor identidade, contando as horas para pegar a estrada e aproveitar o fim de semana em algum lugar diferente, que pode ser Joinville, Balneário ou Floripa. Desde que não seja Mafra, sem problemas.

Esse dilema fica claro quando as pessoas me perguntam de onde eu sou. A resposta sempre precisa ser refletida e explicada: sou de Florianópolis, fui criado em Joinville, voltei para Florianópolis, morei no Rio, voltei para Santa Catarina para morar em Mafra. De onde eu sou? Atualmente, o lugar que eu mais posso dizer que seja de onde eu sou é Floripa, onde nasci, onde meus pais vivem, onde eu gosto de estar. Mas ao mesmo tempo, sei que dificilmente será o lugar onde vou morar num futuro próximo, diante das dificuldades de se conseguir uma transferência para cá. Logo, sei que ainda vou me manter nesse fluxo constante por algum tempo, o que me deixa um pouco preocupado.

Quando voltei para Santa Catarina, minha idéia sempre foi me estabelecer ao menos parcialmente em algum lugar. Não sabia exatamente qual local, mas tinha uma noção ao menos tênue de onde poderia ser. Meus planos de estabilidade passam (ou passavam) por ter alguém ao meu lado, com quem eu possa definir um local para chamar de meu, por mais que ganhe a vida em outra cidade mais distante. Meus planos traçados eram nesse sentido exato, ter uma vida que passasse pela cidade que escolhi como minha, ao lado da pessoa escolhida. Tudo parecia bastante simples nos meus planos, mas os projetos não são unilaterais, sendo que a pessoa com a qual eu pretendia dividir tais projetos não cogitou sequer discutir uma possibilidade de futuro, o que me fez ficar novamente no fluxo contrário, junto com todas as pessoas que vivem sem planos, sem possibilidades, vagando e se achando felizes por não terem trânsito à sua frente, mesmo sem saber qual o destino a traçar.

Posso dizer que vivo no contra-fluxo também por isso, por, ao contrário da maior parte das pessoas que traçam planos mirabolantes para um futuro próximo ou remoto, não ter qualquer tipo de plano para o futuro. A tentativa de estabelecer um pouco de previsibilidade, um pouco de controle dos meus próximos passos, em geral, criou grandes desilusões. Nada saiu dentro do planejado, nada foi o que eu poderia supor que fosse. Então prefiro me entregar ao meu padrão, que é viver na direção contrária: sem planos, sem ambições, esperando que uma hora possa tomar o rumo certo.

Sábado, 31 de Julho de 2010

31 de Julho

O dia 31 de julho marcou a minha infância. Esse era o nome do clube onde eu e meus amigos jogávamos bola no início dos anos 90. O antigo Clube dos Sargentos em Joinville, onde muita gente da minha idade participou da escolinha de futebol com o “seu” Perini. Em homenagem ao aniversário do clube, todo ano acontecia algum evento no dia, um campeonato de futebol, uma brincadeira ou qualquer coisa do gênero. É bem provável que, nesse exato momento, há uns dezessete anos atrás eu estivesse chegando em casa no fim da tarde cansado, com a cabeça a mil pensando nos jogos que tinham acontecido no decorrer do dia, nos gols feitos, os desperdiçados, sonhando em, quem sabe um dia, ser jogador de futebol.

Aquela época deixou muitas lembranças. Amigos com os quais ainda tenho contato, pessoas com as quais voltei a ter contato em outros momentos da vida, muitas histórias. Mas na verdade as maiores lembranças são mesmo do nosso “professor”. Seu Perini era um senhor de idade indefinida, pele amarelada por causa dos problemas de fígado – que já estavam em estágio adiantado na época – e uma hérnia enorme que dava um aspecto muito estranho às calças esportivas largas que ele colocava. Tinha um nariz também meio estranho, meio esmagado, que dava o toque final ao seu rosto, junto com o pequeno bigode posicionado um pouco abaixo. Ele era um militar da reserva, acho que era sargento, já adoentado, ao qual devem ter dado a função de técnico da criançada apenas para que ele tivesse alguma coisa para ocupar seus dias.

Mas ele não queria saber de levar as coisas muito na brincadeira, pelo contrário. Tinha sido jogador profissional (ou chegou perto disso), mas por seus problemas com bebida acabou jogando tudo fora. Mesmo assim, não sabia levar futebol de uma forma que não fosse “séria”. Aqueles treinos com crianças de 8 a 12 anos, talvez um pouco mais, era algo seriíssimo. E levar a sério, para a mente militar dele, significava proferir o maior número de palavrões possível. Lembro-me claramente de dois xingamentos que ele utilizava em qualquer situação: “animal de teta” e “caralho de asa”. Tenho certeza absoluta que foi da boca dele que ouvi palavrões pela primeira vez, já que minha família não é muito boca-suja.

Ele não ficava satisfeito apenas em nos premiar com aqueles palavrões todos. Também fazia questão de dar ensinamentos sobre a vida, lições sobre educação moral e cívica. Sempre fazia questão de dizer que não era exemplo para ninguém, de mostrar que não devíamos seguir o mesmo caminho dele. Contava suas histórias que envolviam prostitutas e bebedeiras (lembre-se, eu tinha não mais que oito anos nessa época). Dizia que quando tinha nossa idade (lembre-se, de novo, que na época nós tínhamos entre oito e doze anos), ele tocava punheta cinco vezes por dia e o pai dele dava gemada com vinho, o que o fazia bater mais cinco e, segundo ele, ficar grudado na trave, seja lá o que ele queria dizer com essa expressão. E supunha que, de certo, nós não corríamos direito porque éramos iguais a ele.

Os ensinamentos prosseguiam. Dizia sempre que a gente tinha que ter caráter, para que quando fôssemos presos, não ficássemos tapando a nossa cara na tevê. Lembrem-se, mais uma vez, eu tinha oito anos nessa época. Não fazia a menor noção do que ele estava falando. Aliás, até hoje me questiono se ele achava que nós seríamos marginais, ou se só queria ensinar que, se nos tornássemos marginais, não teria sido por falta de lições de moral (já que essas, com certeza ele nos dava). Não sei se meus pais e se os pais da maioria dos outros garotos tinham idéia dos ensinamentos com os quais ele nos presenteava. Hoje, imagino que a maioria não soubesse, porque não consigo pensar que os pais fossem tão irresponsáveis a ponto de deixar os filhos nas mãos de um completo maluco como aquele.

Mas, por incrível que pareça, nós gostávamos dele. Lembro que ele não tinha filhos homens, acredito que ali era a oportunidade que ele tinha de ter vários filhos, aos quais tentava ensinar a jogar bola. Devo ter passado uns três anos treinando com ele (91 a 94), sendo que no último ano ele resolveu nos inscrever no campeonato de futebol da cidade. Ele inscreveu a equipe nos campeonatos infantil (até 14 anos) e mirim (até 12 anos). Mas nós tínhamos apenas jogadores da categoria mirim e acabamos disputando os dois torneios com o mesmo time. No campeonato infantil, perdíamos feio todos os jogos. Mas apesar de ele brigar conosco durante as partidas, sempre sabia reconhecer o nosso esforço por estarmos enfrentando adversários maiores.

Como a vida não é filme, com aquela lição de superação no final, acabamos não vencendo nenhum jogo no torneio infantil daquele ano, pelo que me lembre. E no decorrer daquele ano, seu Perini ficou ainda mais doente e acabou falecendo, acho até que antes de nos ver vencer a primeira partida num campeonato. Lembro de ter ido à missa de sétimo dia dele, mas não lembro se fiquei triste ou não com a perda. Sei apenas que todo dia 31 de julho eu lembro dos sábados de manhã, daquela época que foi tão boa. E lembro como ouvíamos todas as histórias, todos os “conselhos”, mas nada daquilo nos afetava. Talvez porque fôssemos apenas crianças de oito anos.

Quarta-feira, 28 de Julho de 2010

A maior conquista de um homem


“(...) Hugo havia dito que queria um álbum de música clássica sem as partes chatas, então afirmei que é preciso ter as partes chatas, porque o que ele chamava de partes chatas são o que fazem as partes memoráveis, memoráveis. ‘A vida tem partes chatas’, declarei um pouco alto demais. Tentei fazê-lo compreender que o grand finale vocal da Nona Sinfonia de Beethoven é emocionante, poderoso e maravilhoso graças a tudo que ouvimos durante a hora anterior, graças a nossa entrega e compromisso com a sinfonia inteira. (...)

A reação de Hugo foi a seguinte: ‘OK, nós podemos perder a Nona de Beethoven; mas não abro mão daquele pedacinho de Mozart que tocou no comercial de iogurte.’ E de novo tive de explicar que não podemos ter pedacinhos isolados. A arte não é assim, e a vida não é assim. Eu havia compreendido isso naquele momento”.

(A maior conquista de um homem – John O’Farrell)

O trecho acima é de um livro que li um tempo atrás, no fim de 2006 mais ou menos. Achei-o sensacional, apesar (ou talvez por causa disso) da linguagem simples e de ser um livro despretensioso, a mensagem transmitida é sensacional. Resumidamente, o livro fala sobre a vida de um morador de Londres de trinta e poucos que trabalha produzindo jingles, casado e com dois filhos pequenos, mas que leva uma vida paralela de solteiro por não conseguir suportar as partes chatas que existem em um relacionamento sério, sobretudo um casamento com dois filhos pequenos. Nesse trecho do livro, ele está discutindo com o seu produtor, que deseja gravar um álbum de música clássica apenas com as partes grandiosas de cada uma das músicas. O personagem, nessa parte, já teve sua vida dupla descoberta e começa a perceber que sente mais falta da “parte chata” de sua vida do que da suposta “fração legal”.

Minha intenção não é fazer crítica literária, mas recomendo o livro, porque achei muito bom. Quero, na verdade, fazer considerações sobre o trecho que abre o texto e a reflexão que ele propõe. A nossa sociedade há muito tempo vende a necessidade de se viver intensamente. Eu quero viver intensamente, com toda certeza. Quero viajar muito, conhecer muitos lugares, muitas pessoas, fazer esportes radicais, beber todas em algum lugar distante milhares de quilômetros da minha casa. Preciso de coisas que me tirem o fôlego para fugir da rotina. Mas, no fim das contas, é a minha rotina que vai acabar mostrando de forma mais clara quem eu sou. Talvez possa parecer sem sentido, mas vou continuar tentando explicar.

A nossa vida, assim como o personagem fala no livro, não pode ser compreendida por pedaços isolados. Isso vale para tudo: para nossa vida, para nossos relacionamentos, para a arte, até para o tempo. Só gostamos do verão porque existe o inverno, que nos faz passar frio por uns tempos e perceber como é bom aquele sol, o calor, a praia. E vice-versa. Aí volto à crítica que fiz antes: a sociedade, as propagandas, tudo ao nosso redor tenta transmitir a imagem de que não podemos nos conformar apenas com o refrãozinho esporádico a cada dois minutos de música, temos que viver num eterno refrão a ser cantado com toda a força dos pulmões. Será que é disso que precisamos?

Sinceramente, acho que não. A vida tem partes chatas. As supostas partes chatas ocuparão boa parte do nosso tempo. Os momentos excepcionais, como a palavra já deixa explícita, são exceções. Exceções que só nos passam uma boa sensação por não serem rotineiras. E só não são rotineiras porque fogem do nosso cotidiano, das coisas que fazemos diariamente. Sem as partes chatas, as partes excepcionais não seriam tão legais assim. O que torna nossa vida legal é ter conhecimento disso e não viver de forma deslumbrada achando que a vida deve ser uma eterna festa sem sentido. Não quero parecer um doutrinador chato – e talvez já esteja parecendo – mas a vida é feita de alguns compromissos, inclusive com a rotina, com a chatice diária que esporadicamente nos deixa cansados de tudo.

Ninguém deve se acomodar com algo que não está sendo satisfatório apenas porque a vida tem partes chatas. Não é isso que estou defendendo. Todos têm direito de tentar melhorar, de buscar a satisfação, seja ela profissional, existencial, sentimental ou qualquer outra. Porém, talvez o que muitos não percebam é que a satisfação não é encontrada nos momentos excepcionais, nos momentos que são vividos e depois passam. Viagens, aventuras, beijos, tudo isso deixa boas lembranças, mas acredito que a satisfação vai ser encontrada sentindo prazer nos momentos chatos, tornando-os agradáveis. E isso nem é tão difícil.

Dizer que a vida tem partes chatas também é perceber que em alguns momentos é necessário lidar com derrotas, com perdas, com tristeza. Deve ser por isso que tantas pessoas se matam ou ficam depressivas, porque existe a pressão por essa vida dos sonhos, a vida perfeita. As pessoas sentem-se culpadas por não estarem dentro desse perfil, por não cumprirem o que se espera delas. Acabam não sabendo vencer momentos ruins, partes chatas, são vencidas pelo caminho. Saber perder, saber sofrer, tudo isso está dentro da grande obra que é a vida e nos ensina muito para quando chegar o maravilhoso refrão.

Sábado, 17 de Julho de 2010

Copa

Acordei na segunda-feira tremendo. Não sabia o motivo, na verdade não havia uma razão aparente. Tinha bebido no dia anterior, mas nada que extravasasse meus níveis normais e suportáveis de álcool. Lavei o rosto, escovei os dentes e me preparei para o próximo jogo na tevê. O que provocou novas tremedeiras por todo meu corpo. A Copa tinha sido decidida na tarde anterior. Não havia mais jogos. Não havia mais programas esportivos a tratar até o nível do suportável os mesmos temas já debatidos e redebatidos. Simplesmente, não mais que do nada, roubavam-me a Copa do Mundo.

Ela que tinha me entretido, que tinha me ocupado os dias, que tinha me feito mudar a programação dos meus compromissos durante todo o mês anterior. E de repente ela sumia sem deixar o menor sinal. Não havia nem mesmo um Eslovênia x Argélia para me entreter às oito horas da manhã. Não havia mais Durban, nem Port Elizabeth, nem Jabulani. Não sabia mais que os pássaros continuavam cantando, porque o som andava abafado pelas vuvuzelas. Meu mundo não parecia mais ser o mesmo dos últimos trinta e tantos dias. Até Central da Copa acabou, soltaram o Caio, tudo mudou.

É sempre assim. De quatro em quatro anos. Mas quatro anos parecem passar tão rápido e tão devagar a ponto de na Copa seguinte parecer impossível que já tenha ocorrido outra Copa antes. E apenas trinta dias depois, parece impossível imaginar que o mundo já tenha sido mundo antes de um Mundial de futebol. Sem exageros. Como viver sem a expectativa do próximo confronto entre a seleção européia sensação do torneio e a seleção sul-americana sempre favorita? Como viver sem as notícias quentes criadas no último segundo? Como viver de novo sem Copa?

Não sei bem como, mas é o tipo de sensação que, de forma bissexta, acaba me dominando. Não sei por qual compromisso moral acabo me obrigando a ver todos os jogos. E não sei o motivo que acaba me deixando com uma sensação de ausência quando deixo de assistir algum jogo, mesmo que seja um Grécia x Nigéria. O meu comprometimento é tamanho que, se perco algum jogo, acabo colocando na minha lista de prioridades o dever moral de, pelo menos, assistir os melhores momentos da partida perdida. Talvez seja por isso que o tempo parece voar ao longo do mês do Mundial. Deve ser por isso que a Fifa arrecada bilhões de dólares. Deve ser por isso que muitos países lutam para sediar o campeonato.

Por incrível que pareça, pouco importa a qualidade das partidas envolvidas. O último Mundial, com toda a sua cretinice técnica, ainda assim foi sensacional. Não sei explicar se é a paixão que devotamos ao futebol (e muitos outros países no mundo também dedicam o mesmo sentimento, vide a Espanha após a conquista do inédito título). Não consigo explicar, é simplesmente uma coisa relacionada com a atração natural. Já prometi a mim mesmo que não dedicarei um só segundo à próxima Copa. Mesmo sendo no Brasil. Mesmo com a possibilidade do hexa. Pena que já faço a mesma promessa desde 1990.